Para o empresário e financista canadense Dr. Greg Bailey, a escolha entre investir em uma liga de vela ainda pouco conhecida ou em um clube da Premier League foi simples e direta. Bailey, cuja fortuna foi construída no setor de biotecnologia, tem uma régua clara para decidir onde colocar seu dinheiro: valorização real. E, segundo ele, a maioria dos clubes ingleses de futebol não passa nessa prova. "Quero algo que valorize ou gere dinheiro, o que eliminou, na minha cabeça, a maior parte dos times da Premier League", disse Bailey ao The Athletic. A declaração resume bem a lógica fria de um investidor que chegou ao mundo dos esportes sem romantismo - e que parece estar colhendo os frutos dessa abordagem.
Há dois anos, Bailey adquiriu a franquia da equipe canadense da SailGP, a liga de vela grand prix fundada pelo velejador neozelandês Russell Coutts e pelo magnata da tecnologia Larry Ellison, da Oracle. O movimento pode ter parecido excêntrico à época - afinal, Bailey admite ter praticado windsurf apenas na juventude, sem nenhum envolvimento sério com a vela. Mas o mercado de investimentos esportivos tem seus próprios circuitos de glamour e influência, e não é tão diferente, em dinâmica, de outros setores competitivos. Assim como Chandler perde posição no ranking do UFC e vê sua trajetória chegar a um ponto de inflexão, atletas e ligas inteiras podem perder ou ganhar relevância rapidamente - e é justamente nessa janela de transição que investidores como Bailey enxergam oportunidade. Desde que entrou na SailGP, nomes como Kylian Mbappé, Anne Hathaway, Hugh Jackman e Ryan Reynolds também passaram a orbitar a liga, atraídos pelo crescimento acelerado e pelo apelo de um esporte que combina velocidade extrema com uma estética de alto padrão.
A trajetória de Bailey até chegar ao SailGP passa, antes de tudo, pela biotecnologia. Ele começou a carreira como médico de pronto-socorro, mas migrou para o setor científico e empresarial, tornando-se um dos nomes por trás da Medivation, desenvolvedora de medicamentos oncológicos adquirida pela Pfizer em 2016 por US$ 14,3 bilhões. Foi esse "exit" bem-sucedido que colocou Bailey no radar de representantes de grandes franquias esportivas. "Eu não estava procurando isso. Aquele garoto pobre de Don Mills nunca pensou em ter um time esportivo", disse ele, referindo-se ao subúrbio de Toronto onde cresceu como filho único de uma mãe solteira. Mas as propostas vinham: cinco por cento do New York Yankees, participação no Milwaukee Bucks, no Charlotte Hornets, em clubes da Premier League. Um segundo desinvestimento, em 2024, ampliou ainda mais o fluxo de abordagens.
A lógica por trás da escolha pela SailGP
A entrada na SailGP não foi por impulso. Inicialmente, surgiu a possibilidade de adquirir 20% da equipe alemã, que tem o tetracampeão de Fórmula 1 Sebastian Vettel como acionista minoritário e é majoritariamente controlada pelo empresário de telecomunicações Thomas Riedel. Mas então veio uma proposta diferente: a equipe canadense estava prestes a ser desativada, com os donos originais deixando o projeto. A gestão da liga ofereceu a Bailey a chance de assumir a franquia. Ele aceitou investigar, mas foi cuidadoso o suficiente para buscar um parceiro com expertise real: Phil Kennard, ex-velejador olímpico britânico com passagens pela Fórmula 1, pela America's Cup e pelo PGA europeu como executivo de patrocínio. "Nunca invisto em nada sem alguém que entenda o negócio muito melhor do que eu", explicou Bailey.
Além da viabilidade financeira, Bailey buscava algo que oferecesse experiência única aos investidores e parceiros. A SailGP entregava isso: acesso ao barco, sessões de treino, passeios no catamarã F50 e o chamado Adrenaline Lounge - o espaço VIP da liga, frequentado por um público cuja renda média declarada gira em torno de US$ 330 mil anuais, com 20% dos presentes superando US$ 800 mil. Para um investidor que pensa em sinergias e networking, a arena social da SailGP funciona quase como um fundo de capital em movimento. A liga também opera com um teto de gastos de US$ 10 milhões anuais por equipe - uma proteção contra o domínio financeiro que distorce competições como a própria Premier League. "Fico feliz que tenhamos um cost cap para que o time mais rico não vença todas as corridas", afirmou Bailey.
Ventos fracos, crescimento acelerado e a questão da sustentabilidade
Nem tudo na SailGP é vento favorável - literalmente. Bailey reconhece que algumas etapas do calendário são disputadas em locais historicamente ruins para a vela. O final da temporada de 2026 passa pelo Lago de Genebra, em setembro, e por Dubai e Abu Dhabi, em novembro - destinos notórios pela ausência de brisas consistentes. Quando os catamarãs F50 estão em "foiling" - deslizando sobre a água com as quilhas hidrofólicas -, chegam a mais de 100 km/h. Quando o vento falta, mal ultrapassam 25 km/h. Bailey entende a lógica comercial por trás das escolhas: a liga precisa de receita para existir. Mas aponta que a captação de mídia tem sido mais lenta do que esperava. "As pessoas querem em cinco minutos: 'Me mostra só os melhores momentos!'", resumiu ele, descrevendo a migração do consumo esportivo da televisão tradicional para plataformas como YouTube e TikTok.
O ponto de inflexão emocional da sua jornada veio quando a SailGP visitou Halifax, capital da Nova Escócia, no mês passado. Cerca de 60 mil pessoas foram às margens para acompanhar o evento. Para Bailey, ver aquela mobilização em torno de uma equipe que esteve à beira da extinção foi algo difícil de dimensionar. "O fato de que a equipe canadense estava prestes a ser desativada, e ainda assim ver esse apoio extraordinário - e que eu pude ter algum papel para que isso não acontecesse -, isso é muito emocionante", disse ele.
Futebol no horizonte: Braga na mira e ceticismo sobre a Premier League
Bailey não descarta o futebol de alto nível, mas insiste que o modelo de negócio da maioria dos clubes europeus é estruturalmente frágil. "Se você olhar para a Europa, talvez só sete ou oito clubes realmente ganham dinheiro. Quando alguém compra um clube de futebol, geralmente está pensando em imóveis: é um estádio que tem um conteúdo chamado clube de futebol", analisou. É exatamente por isso que o clube português Sporting de Braga chamou sua atenção. O clube minhoto chegou às semifinais da Liga Europa nesta temporada e é reconhecido pelo trabalho de sua academia de formação - um modelo que gera receita com a venda de jogadores, semelhante ao que o Brentford faz na Inglaterra. "Tenho grande respeito pelo presidente e pelo que ele consegue fazer com a academia", disse Bailey, sem confirmar nenhuma negociação concreta.
O investidor também mencionou interesse na chamada "NBA europeia" - projeto de liga continental de basquete - mas reconhece que, tanto no futebol quanto no basquete, a concorrência por ativos é intensa, justamente pela visibilidade global dessas modalidades. Por enquanto, a SailGP segue como seu principal porto esportivo. E a valorização das franquias dá razão à sua aposta: Sir Ben Ainslie comprou a franquia britânica em outubro de 2021 por menos de US$ 10 milhões. Hoje, as equipes são avaliadas entre US$ 60 milhões e US$ 80 milhões. Para quem queria algo que valorizasse, os números falam por si.