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Sandra Zaniewska transforma técnica em escritora e guia Kostyuk às quartas de Wimbledon

No All England Club, em Londres, Marta Kostyuk chegou às quartas de final de Wimbledon pela primeira vez na carreira ao vencer a qualifier americana Ashlyn Krueger por 6-4 e 6-4 na quarta rodada. A ucraniana de 24 anos, cabeça de chave número 12 e semifinalista do Roland Garros, soma agora 20 vitórias nos últimos 21 jogos e consolida sua posição entre as jogadoras mais em forma do circuito feminino. Por trás dessa evolução está Sandra Zaniewska, técnica polonesa de 34 anos cujo trabalho vai muito além das quadras.

Zaniewska não é apenas uma das poucas treinadoras mulheres a atuar no topo do tênis mundial - ela é também autora de uma newsletter chamada "The Unseen Court", na qual narra com profundidade os bastidores da relação entre técnica e atleta. O projeto literário nasceu de uma paixão que antecede o tênis em décadas: quando tinha oito anos, ganhou um "A+" em uma redação escolar, compartilhou a notícia com a mãe numa manhã de montanha e nunca mais esqueceu a sensação. Assim como o recorde de Messi em Copas do Mundo representa a cristalização de uma obsessão construída ao longo de anos, a ambição literária de Zaniewska foi plantada naquele fim de semana e cresceu em silêncio até encontrar o palco certo.

A técnica que escreve em inglês porque o polonês "fica terrível"

Zaniewska aprendeu inglês ainda criança e, aos 17 anos, deixou a Polônia para treinar na Turquia. Desde então, o inglês tornou-se sua língua de pensamento - não apenas de comunicação. É em inglês que ela escreve "The Unseen Court", sem passar pelo polonês. "Se eu tento escrever em polonês, fica terrível", admitiu durante entrevista às vésperas de Wimbledon. Em sua formação literária, Paulo Coelho - o escritor brasileiro - ocupou lugar central na adolescência, com suas fábulas modernas. Mais recentemente, ela migrou para a não-ficção filosófica de Alain de Botton.

Por anos, Zaniewska registrou pensamentos soltos no computador, sem forma definida e sem intenção de publicar. Foi só no ano passado que ela decidiu moldar esses fragmentos em ensaios. Mesmo assim, hesitou em torná-los públicos, já que o conteúdo envolvia diretamente Kostyuk. Quando finalmente mostrou os textos à atleta, a resposta foi imediata e encorajadora. "Isso não existe, você escreve muito bem, você tem as histórias", resumiu Zaniewska a essência do incentivo recebido. A newsletter foi ao ar.

Coaching como contenção - a filosofia por trás das palavras

A entrada mais recente de "The Unseen Court", publicada antes de Wimbledon, trata de um dos temas mais contraintuitivos do esporte de alto rendimento: a importância de não fazer nada. "Um técnico pode estar certo e ainda assim ser inútil", escreveu Zaniewska. "Você pode entender completamente o problema tático, o padrão emocional, o momento em que a jogadora está perdendo a conexão. E ainda assim, se você disser no momento errado, do jeito errado ou do lugar errado, pode não chegar. Pode deixar a jogadora mais confusa, mais dependente, mais irritada."

Essa filosofia da contenção ganhou contornos práticos na primavera europeia, quando Kostyuk venceu o Rouen Open e o Madrid Open em sequência. Diante de perguntas sobre o que havia "mudado de repente", Zaniewska respondeu com o ensaio "A Ilusão do De Repente". "Há uma diferença entre um nível que aparece e um nível que fica", escreveu. "Por muito tempo, era esse espaço que estávamos navegando. Não tentando encontrar algo novo. Tentando construir as condições para que o que já estava lá pudesse ser mais confiável."

Uma parceria de três anos que chega ao auge na grama de Wimbledon

Kostyuk e Zaniewska se conheceram para um café em Londres há três anos - a jogadora ucraniana diz que nada do que veio depois teria acontecido sem aquele encontro. No dia 15 de julho, as duas completam três anos juntas. Zaniewska já pensa no ensaio que vai escrever sobre essa trajetória: onde começaram, por onde passaram, onde estão agora. "Todos os relacionamentos têm momentos difíceis. As pessoas podem se identificar com isso", refletiu.

A própria Kostyuk chegou a Wimbledon convicta de que a grama não era para ela. Nunca havia se sentido confortável nessa superfície, perdia todos os sets de treino e duvidava de suas chances. Virou-se para Zaniewska e pediu uma resposta honesta: a grama combinava com seu jogo? A técnica respondeu: "Cem por cento." Kostyuk foi às quartas de final pela primeira vez. Zaniewska tem mais material para escrever. O tênis e a literatura, por ora, seguem o mesmo ritmo.