No All England Club, em Londres, um boleiro corre ao longo da rede e se agacha. O vento agita a barra de uma saia. Um tenista enxuga o suor da testa, quica a bola uma, duas, três vezes e saca. O som que se segue - o impacto percussivo das cordas contra a bola - é, por si só, uma narrativa completa. Na televisão, os narradores ficam em silêncio e deixam esse som falar. No rádio, porém, o silêncio é o fim do jogo. As palavras são o esporte.
Essa divisão fundamental coloca o tênis em uma categoria raríssima, ao lado do snooker e de alguns esportes de precisão como o curling, onde narrar significa, antes de tudo, saber quando não falar. Da mesma forma que em outras modalidades os grandes momentos transcendem o esporte em si - como quando se confira o recorde de Messi em Copas do Mundo, um marco que vai muito além dos números e exige do narrador uma voz à altura da história -, no tênis radiofônico a grandiosidade de um momento depende inteiramente da capacidade de quem segura o microfone de transformar geometrias invisíveis em imagens audíveis.
O ritmo como partitura
Jonathan Overend, narrador de tênis há mais de 25 anos, hoje na Sky Sports e anteriormente na BBC Radio, descreve a narração esportiva como uma composição musical. "Isso é sacrilégio", disse ele, em entrevista em Wimbledon, ao ser questionado sobre falar enquanto o tênis acontece na televisão. Para Overend, 53 anos, o narrador de rádio precisa sincronizar sua voz não apenas com o placar - games, sets, partidas -, mas com o pulso vivo de cada ponto. O sacador recebe as bolas. O ponto se desenrola. A torcida reage. O processo se repete. E o narrador deve conduzir tudo isso como um maestro que conhece tanto a partitura quanto o temperamento da orquestra.
Gigi Salmon, apresentadora e narradora de televisão e rádio para a Sky Sports e a BBC Radio 5 Live, vai mais longe. "Quero que as pessoas sentadas em casa sintam que estão aqui", disse ela, também em entrevista em Wimbledon. Salmon, 49 anos, descreve cada bola de um rally. "Me perco num mundo de contar histórias. É assim que minha paixão pelo esporte se manifesta." Para ilustrar sua abordagem, ela reconstituiu a narração do match point de Novak Djokovic, heptacampeão de Wimbledon, nas quartas de final contra o terceiro cabeça de chave Félix Auger-Aliassime: "Segundo serviço, match point Djokovic, ele se aproxima cada vez mais da linha de fundo... o backhand paralelo de Djokovic, ele gira no forehand, vai na paralela, a recuperação no backhand de Auger-Aliassime sai fora. E Novak Djokovic conseguiu! Após cinco horas e 15 minutos, ele passa por um épico de cinco sets..."
Resistência e improviso: a maratona de Isner e Mahut
A exigência física e intelectual da narração de tênis no rádio ficou gravada na história do esporte em 2010, quando Salmon foi escalada para a primeira rodada de Wimbledon entre o americano John Isner e o francês Nicolas Mahut. A partida se estendeu por três dias e 11 horas e cinco minutos, terminando com Isner vencendo o set final por 70 a 68. No segundo dia, Salmon narrou sozinha por nove horas e meia consecutivas debruçada sobre o corrimão verde do telhado de transmissão do All England Club, microfone em uma mão, prancheta e caneta na outra, sem ir ao banheiro. A multidão era tão densa na Quadra 18 que ela não conseguia se mover. Alguém lhe passou uma bateria e uma garrafa d'água. Em determinado momento, até o placar eletrônico quebrou. A narração continuou.
O episódio ilustra uma diferença fundamental entre televisão e rádio: na TV, o narrador principal faz a partida inteira; no rádio, os narradores geralmente se revezam por sets, o que permite repousar a voz. Salmon recorre a abacaxi fresco e chá de camomila com mel e limão para preservar as cordas vocais. A resistência, contudo, não é apenas física. Em uma partida de cinco sets, o narrador não pode atingir o clímax cedo demais. Ele precisa estar em sintonia com a respiração do jogo.
Preparação, emoção e o vilão de Bond no Centre Court
Rob Nothman, coach de radiodifusão, resume o desafio técnico com precisão: "Forehand de B, backhand de A, forehand de B, backhand de A - ninguém consegue ouvir isso por muito tempo. O tênis no rádio é altamente especializado e uma das disciplinas mais difíceis." A solução exige vocabulário imediato e variado, economia de linguagem e, acima de tudo, preparação. Os narradores costumam descobrir quais partidas vão cobrir na véspera - tempo suficiente para pesquisar o ser humano por trás do atleta, mas não tanto que os dados se tornem um fardo. "É mais do que um forehand e um backhand. Essa é uma pessoa", disse Salmon.
Às vezes, toda a preparação se torna irrelevante no calor do momento. Durante a conquista histórica de Andy Murray em Wimbledon, em 2013, Overend mal olhou para sua folha de anotações. Com Murray sacando para o título em 5-4 no terceiro set, Djokovic salvou três match points e converteu um break point. Foi uma dobra na partida. Murray nunca havia vencido Wimbledon. O peso daquele instante pairava sobre a quadra. Djokovic então caminhou até o canto dos narradores de rádio no Centre Court - exatamente o oposto das câmeras de televisão - e sorriu. "Ele parecia um vilão de James Bond", disse Overend. "Prestes a destruir os sonhos do herói britânico." Mas Murray salvou três break points e criou um novo match point. Overend ergueu o microfone: "Este famoso Centre Court está prestes a enlouquecer. Murray saca, é agora, é agora, forehand de Murray, backhand de Djokovic... Na rede! Murray é o campeão de Wimbledon! Parece absurdo dizer isso. Mas o britânico acabou de vencer Wimbledon!"
"É essa emoção que você tenta transmitir - como o momento te faz sentir e o que ele significa", refletiu Overend. "Isso, para mim, é a arte da narração."